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23.4.18

Minha Crônica 1



Nadei nua em praias desertas, cachoeiras e açudes ; fiz topless em Trancoso e na praia do Pepino

Dormi em roça, em um farol no meio do oceano, caminhei milhas e milhas, fiz trilhas em ilhas e em uma aldeia indígena.

Acampei no mato, na praia; me hospedei no Hilton em frente ao Hyde Park, e em simpáticas pousadas no meio do nada.

Naveguei em canoa, lancha, saveiro; andei na boleia de caminhão, na carona de carroça, a bordo de carruagem no Central Park; voei de avião e na garupa de motos; cavalguei estradas e morros em um mangalarga. 

Fui bater ponto dez vezes em Nova York; passeei pela orla de Miami; vaguei pelas noites de Buenos Aires; explorei o Coliseu de Roma.

Brinquei que nem criança na Disney com meus filhos; tirei onda no Palácio de Buckingham, em Londres, e lá conheci onde morou a Diana.

Dancei axê até o dia raiar em Porto Seguro; dancei num "queijo" na antológica discoteca londrina 'Ministry Of Sound'; e me requebrei de biquíni ao som do "The Clash" em cima de uma mesa em Arraial D'Ajuda.

Me acabei outro dia nas pistas do Armin e, anos atrás, rodopiei nos melhores clubs de Manhattan; e não, não dancei tango na Argentina, mas cumbia com um moreno lindo com dreads até a cintura. 

Sambei em mil blocos no Rio de Janeiro, desfilei na avenida em cinco escolas de samba, incluindo a minha amada Portela.

Tive o privilégio de ver Fernanda Montenegro e Paulo Autran atuando no teatro; de assistir a ópera Carmem de Bizet no Cólon, e Aida de Verdi no Municipal.

Soltei muito a voz no chuveiro, cantei sério em serestas familiares, fui ovacionada em um karaokê em Laranjeiras cantando Gal.

Em alguns shows inesquecíveis, Fred Mercury jogou cerveja em mim; pude ver de perto o suor da Madonna e da Britney, e as expressões dos rostos de Michael Jackson, Jamiroquai, Elton John e Rihanna.

Jantei com Lucy e Hebert Vianna; Renato Russo (meio bêbado) um dia me parou em uma esquina de Ipanema para falar sobre o meu destino ; fui apresentada ao Caetano Veloso, e tive a oportunidade de ficar longamente atracada com o Roberto Carlos.

Bati papo com Lulu Santos, conversei horas com Carlinhos Brown; ganhei flores das mãos do Cazuza em um show; uma dedicatória-poema do Chacal; e (sem querer) botei a mão na bunda da Jennifer Lopez, ao posar com ela para uma foto.

Ricky Martin cantou 'Maria Maria' pra mim no seu camarim; Luís Melodia também cantou 'Vesti Azul' pra mim em uma ponta de bar; e Al Pacino sorriu pra mim (duas vezes) em uma calçada no Upper East Side. 

Desfrutei de tardes e tardes perambulando pelos corredores do Malba, do Moma, do Guggenheim, do Metropolitan, do MAM, do Museu do Amanhã, do CCBB e do Instituto Moreira Salles.

Gastei boas horas de pé, contemplando obras maravilhosas de Picasso, Renoir, Jean Basquiat, Adriana Varejão, Matisse, Dalí, Tarsila do Amaral, Rodin, Portinari, Frida Kahlo, Modigliani, Rodin, Lygia Clark, Maria de Medeiros, Diego Rivera e tantos mais deuses da arte.

Passei um réveillon sob as luzes da Times Square; outro em uma ilha iluminada por tochas; outro sob os fogos de Copacabana; outro descalça , em Ubatuba, com um desconhecido maravilhoso; e dois deles sozinha em casa, quieta no meu canto.

Tive meu estilo elogiado por Constança Pascolato; minha graça elogiada por Austregésilo de Athayde; dividi mesa de almoço com Marieta Severo; e minha primeira entrevista exclusiva foi com o Zico.

Tomei vinhos memoráveis em companhias ordinárias e tomei cachaças vulgares em luxuosas companhias. Dei a volta ao mundo nos braços de carioca, baiano, goiano, paulista, italiano, mexicano, espanhol, catalão, londrino, americano, chileno, argentino, suíço, angolano.

Dei uns bons beijos em objetos de desejo impossíveis; fiquei forçadamente celibatária por um tempo impublicável ; flertei com uma centena de gatos; fiz muito sexo volátil.

Tive algumas paixões platônicas, muitos romances bacanas, mas também já rejeitei e fui rejeitada, e, outro dia mesmo, levei um homérico vácuo.

Até hoje, tive uns cinco grandes amores, casei-me com dois deles, e ainda tenho disposição para amar mais e melhor, quem assim merecer.

Até porque amar é a maior qualidade do DNA da minha família: recebi amor de pai,  de mãe, de irmãos, de avô, avós, tios, primos e sobrinhos.

Coloquei no mundo dois filhos adoráveis, inteligentes, amorosos, independentes e , ainda por cima, lindos. Eduquei, cantei pra eles, rimos muito, passeamos por mil cantos, inventamos encantadoras histórias juntos, e hoje eles estão entre os meus melhores amigos.

Aliás, tenho amigos de longa data e alguns, mais recentes, com idades até para serem meus filhos. São os meus companheiros de intermináveis papos, filosofias baratas, gostosas risadas, porres, viagens enfumaçadas; testemunhas oculares de cenas impagáveis.

Me apresentei em palcos dançando ballet moderno; ganhei dinheiro pela primeira vez como modelo amadora; saí em jornais, escrevi para alguns, publiquei textos em revistas, assinei coluna de moda em um portal da Bahia, e dezenas de posts para blogs.

Me graduei como jornalista,  e fiz (e faço ainda) mil cursos, incluindo alguns cara a cara com profissionais que são quase ídolos (de tanto que eu os admiro), como um de crônicas com Marina Colasanti, um de teatro com Ney Latorraca e um de cinema com Walter Salles.

Fui gerente artística de casa noturna famosa; assessora de imprensa de festivais de rock e de música eletrônica; trabalhei em rádio e gravadora; fiz reportagem para TV, produzi para o cinema, fui assessora de chefs, vendi em barraca de  feira de antiguidades;  dei palestras em universidades.

Em mais de uma ocasião,  fiquei dura sem ter como pagar nem uma passagem de ônibus, e já tive o suficiente para comprar um carro sem precisar checar meu saldo.

Levei meus filhos em paradas gay, gritei em passeatas defendendo um monte de causas; já acreditei em respostas exatas;  me consultei com cartomantes e videntes; fiz análise e mapa astral.

Nas minhas buscas, acompanhei procissões, frequentei igrejas e terreiros; meditei em templos budistas em profundo silêncio. 

Assisti a uma centena de filmes nas telas, li dezenas de bons livros, milhares de artigos, e vou continuar a fazer tudo isso, sempre.

Como um longo ensaio, escrevi anonimamente centenas de poemas, contos, crônicas, pensamentos e, finalmente, depois de quase 20 anos de idas e vindas, estou terminando meu primeiro livro.

Durante todo esse caminho, chorei algumas vezes de doer os músculos do rosto, de cair no chão em frangalhos; porém, também dei muitas gargalhadas de doer a barriga e desopilar o fígado.

Já fui travada e já fiquei desatinada; errei, me equivoquei feio, tive alguns arrependimentos dolorosos, outros mais amenos, mas tenho muito mais para celebrar e me orgulhar.

Ao listar tudo isso, percebo que mesmo sem estar nadando em dinheiro, a  minha trajetória já tornou-me irremediavelmente rica.

E realizo que, se morresse amanhã, percalços  a parte, eu seria grata pela história da minha vida que já está escrita.

Mas eu ainda estou por aqui, e pretendo acrescentar alguns capítulos a mais; continuar fazendo valer cada dia que eu respiro, sem medo.

Porque, mesmo que de vez em quando machuque, eu prefiro cair de boca na vida do que parar de me mover, de me abrir, de aprender, experimentar, de evoluir.

O futuro é hoje.


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