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9.7.17

Foi


Ela andava pelas ruas, sentindo o frio daquele inverno inconveniente no pescoço, olhando pra frente sem ver nada. Apenas vagava. Aquelas duas letras ecoavam na sua cabeça, ou melhor, tudo o que elas representavam.

Ela poderia ter escrito mais um longo texto, se debatido em mais um inútil discurso, questionado mais um pouco sobre o que aconteceu, o que poderia e o que jamais deveria ter acontecido. Não era mais o caso. Outras palavras não ditas em conluio com o tempo já haviam gritado que o fim havia chegado, mas gritos são sempre difíceis de ouvir.

São tantos os canais hoje para afirmar, reafirmar ou revelar a falta de intenções e de direções; um emaranhado de vias trafegando em mensagens de texto, celulares, emails, messengers, directs, histories, que a falta de atividade em tantas possibilidades tornam-se um contundente discurso.

Mas sentimentos são old fashion, não conseguem ser tão rápidos, são apegados. Com tantos registros fica ainda mais difícil desconsiderar que aquela certeza não era verdade, que aquela intensidade era ambiguidade, que toda aquela conexão era apenas um entretenimento de ocasião.

Ela andou assim por algum tempo pelas ruas, se despindo em público, tirando das mangas, das dobras, dos bolsos, dos sapatos, das bolsas, preso entre os cabelos; se livrando de tudo que foi provocado, evocado, mexido, revirado, prometido. 

E ficou assim alguns dias, pacientemente procurando cada pedacinho, cada resquício daquela história interrompida por vaidades maiores do que os simples fatos. Jogou tudo fora. Ficou tudo no travesseiro, espalhado pelas ruas, no metrô, na areia da praia; nas conversas cúmplices com os amigos, em desabafos escritos na tela do computador, em mensagens terminais no celular, em rabiscos sem nexo no bloquinho de anotar.

Foi uma limpeza concentrada, doída e com uma certa pressa; uma limpeza cuidadosa para abrir espaço para outras histórias. Afinal, a vida tem que seguir. Pra quem se gosta isso é básico. E assim, naquele dia não datado em que tudo finalmente se esvaiu; ela sentiu, respirou fundo e enviou para o ex-destinatário um "OK" solitário e definitivo.

Ele não entendeu, abandonou sem pena o seu fiel silêncio, enviou e reenviou o "OK" dela de volta acompanhado de pontos de interrogação. Não há resposta, ela não tem mais perguntas. O jogo acabou.



Photo: walldevill  (sepia version)

2017 

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