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1.10.16

Pequena morte


Era só um primeiro encontro, cheio de informações desconexas, histórias que não se completam, alegrias tolas, afinidades gratuitas. Falaram e riram sem reter nada. Tudo era uma questão de estar perto, de poder estar dentro; tudo tão intenso e combinado que, por mais de uma vez, ele parou no meio e a encarou, em outro momento foi ela...medo...mas não havia respostas, nem tempo.

Na despedida, meio desconcertada, ela foi saindo sem dar o aval do seu beijo. Ele a puxou pelo vestido. Quando ela se virou, a expressão no rosto dele falava mais do que as palavras. Ela então pulou em seu colo, segurou seu rosto, afundou as duas mãos em sua barba, olhou em seus olhos e deu-lhe um descansado beijo. Ficaram ali, algum tempo, inertes por fora e aos turbilhões por dentro, até se soltarem com uma desafogante suspirada.

No dia seguinte, um compromisso qualquer, marcado na vida de antes, afastou os dois de uma continuação desse eloquente enredo. Com o começo da semana, ambos mergulharam em uma frenética rotina urbana: tensa, tomada, ocupada, apressada. Mas, eles não se desconectaram; se alimentaram de mensagens, emails, recadinhos sonoros, provocações em vídeos, interesses explícitos. Usaram toda a tecnologia disponível a favor da desfavorável realidade rasa.

E então, exatamente uma semana depois, finalmente se reencontraram em um suposto jantarzinho combinado à quatro mãos na casa dele. Ingredientes na bancada, travessas, panelas, vinho, taças e, de repente, a campainha toca desfocando a cena. Ele se desmaterializa para chegar à porta mais rápido; ela surge energética, sorridente, cheia de graça e sem graça, pela sua indisfarçável fome de jantá-lo.

Ele aceita a troca. Pega a sobremesa das mãos dela, a coloca em algum lugar improvável; e a envolve em seus braços. Ela mais uma vez se perde em um beijo afundado naquela barba, enquanto ele a segura sob o vestido, pelas popas, subindo as mãos com uma pressão forte, sentindo texturas, temperaturas e carne. Ela se ampara na parede. Ele se aproxima mais e vai encaixando seu corpo inteirinho no dela. Não se despem. Ficam embolados entre beijos e respiros; entre desejos, apertos e movimentos. Entram em uma sintonia tão violenta que morrem juntos ali, por um momento...   


2016

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