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28.8.16

Futuro on the rocks


Na geladeira, rótulos ao acaso de cervejas
No ar, a música da hora toca no automático
Cream cracker com pasta vira petisco
Os assuntos não são concentrados
As risadas, livres e desconcertadas

Os temas não serão particularmente lembrados
Os motivos não são importantes
As buscas não são precisas
As atenções não têm foco predeterminados
Os propósitos não são exatos

É apenas uma interseção de afinidades
Coincidências estratégicas de idades
Resenhas de uma geração
De uma vida em gestação
Um interlúdio para a real-idade

E então depois que o tempo já foi instalado
Essa desimportância ganha relevância
É o cimento que estabiliza solos frágeis
O oxigênio nas nuvens dos desencontros
O sol em um mundo de óculos escuros

Onde as escolhas são conscientes
As decisões são mais fáceis
A jornada encontra sentido
O equilíbrio é uma conquista
Mas nada é tão leve como antes


2016





25.8.16

Contrastes


E o que seria eu sem os meus desamores?
Sem um texto para as minhas minhas palavras
Sem uma busca para as minhas incertezas
Sem um alvo para meus sentimentos
Sem um desastre para chegar às minhas vitórias

E o que seria eu sem viver meus dias?
Sem acordar todos os dias
Sem querer o que me falta
Sem sair a procura do que me basta
Sem acreditar no encontro dos desencontros

E o que seria eu sem errar?
Sem acertar
Sem me perder
Sem tentar me achar
Sem eventualmente me encontrar

E o que que seria eu sem me desentender?
Sem me conhecer
Sem me reconhecer
Sem me desconhecer
Sem me ser

E o que seria eu?
Senão eu mesma
Senão eu
Senão
Se

2016

Ilustração: La Carpa — Aykut Aydoğdu (detalhe)

24.8.16

Fôlego



Os olhares se encostaram
Era possível sentir o toque calmo
Íntimo

O mundo em volta embaçou
Saiu de foco, só ele ficou nítido
Silêncio

Ele não se movia
Sua imagem congelou como em um retrato
Impacto

De repente tudo voltou a funcionar
A cena ficou rápida, um tiro certo
Encontro

Quando ela se deu conta, estava entregando um cartão
Na sequência, ele estava na tela dela
Certeza

E agora estavam ali, no mesmo quadro
Abraços fortes antes de nomes e sobrenomes
Quereres

Nariz com nariz, cheiros, texturas, temperaturas
E um inédito hiato bom no peito
Fôlego


2016


22.8.16

Noite inconclusiva



Ela lança um olhar longo para a rua pela vidraça do McDonald's da Times Square
Está no segundo andar, mas parece estar muito mais distante
Pessoas zanzam pela madrugada pós alguma coisa
Alguns riem em grupos aparentemente felizes, será?
Outros caminham devagar, sem linhas retas, errantes
Outros são um, na verdade dois, o abraço os aperta
Ela é um pouco de todos
E nenhum

Quando ela se perde, adora ir para aquele lugar híbrido, hiper iluminado e vago
Fast food, fast images, fast impressions...nada existe para ser retido
De alguma maneira aquele anonimato genérico lhe conforta
Quem é ela, quem são todos, apenas mais um...

Ela continua olhando pela vidraça, ofuscada pelo neon do letreiro logo abaixo
O excesso ao redor torna tudo menor, menos, simplificado
A poluição de informações do espaço lhe proporciona uma meditação ao inverso,
Onde os gritos dos desejos e das boas intenções de horas antes
Se dissipam no sussurro das coisas ordinárias sem endereço.

Isso a faz voltar para o eixo perdido
Depois de uma promissora noite inconclusiva
Que tornou-se mais uma vez um lugar comum


2016

14.8.16

Parênteses


Sem local definido
Não importa, tanto faz
Urgente mas na hora que der
Qualquer tempo vai ser tudo.

Espera-se que seja intenso;
Abra as pupilas,os poros,os plexos,os nexos;
Provoque ondas fortes em um mar de marolas...
Revigore sentidos domesticados.

As datas são acertadas, o calendário é combinado
Tudo tem que acontecer em paralelo
Sem tocar as linhas limítrofes,
Mesmo que estas sejam invisíveis.

É declarado, escancarado, escandaloso
Mas tem que permanecer secreto
É apenas um escape, um adendo,
Com significado devidamente controlado.

Mas, para quem é um texto que vai além das palavras...
Resumir-se a um parênteses,
Que pode ser retirado sem alterar o sentido do que está escrito,
Não interessa.

2016




4.8.16

Jump!


Tempo prévio...
Segundos que se arrastam, contrariando a pressa da ansiedade
Fantasias...

A pressão, a impressão, o primeiro encontro
Desejos saem pelas roupas, das dobras, dos bolsos, descosturam...
As expectativas, sempre elas, desafiam a cética realidade

E então como será?
Uma confirmação, uma ilusão, um desatino, um nó?
Tudo pode surpreender, inclusive para melhor...

O maior prazer talvez esteja nesse exato momento do não saber
Onde tudo pode ser ou, mais uma vez, não ser nada
O jogo não é tentar controlar os resultados, é apostar

Eu arrisco
Foda-se
Estou viva.
  

2016

3.8.16

Rumo...


Desculpe, mas eu não tenho medo de ficar desconfortável ao procurar o que me interessa...

Acho até que tenho lidado cada vez melhor com isso, porque antes de um sim que valha realmente a pena há de se enfrentar muitos nãos de todos os tipos...

O que eu não faço, e também não me interesso por quem o faça, é ficar me escondendo dos meus desejos, por mais loucos que pareçam; ou ir em direção a eles hesitante, perdendo tanto, as vezes tudo...

Não há dúvidas de que meu currículo de frustrações, decepções e quebras de expectativas é vasto; proporcionalmente vasta é a minha lista de experiências únicas, pessoas incríveis e prazeres impublicáveis...

Combinado isso, já nos entendemos: você segue o seu caminho reto e eu continuo a caminhar.



2016