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29.5.16

Paraíso dos homens


Eu decidi não expor minha indignação, meu ultraje, meus sentimentos quanto à violência inominável sofrida pela adolescente brasileira estuprada por mais de 30 homens. Decidi ficar calada, andava cansada de qualquer bandeira, principalmente depois de participar ativamente das passeatas que começaram a questionar o governo recém deposto, e de vê-las se esvaziarem por claras sabotagens do próprio governo que pararam, calaram e aquietaram as vozes. O governo eleitoreiro das esmolas que assaltou o país foi reeleito e o trabalho que deveria ter sido feito para impedi-lo de continuar a sua festa, agora foi feito para expulsá-lo e remendá-lo precariamente. Cansei mesmo.

Mas hoje estava indo para a praia, dar um necessário break. Aqui não é a Venezuela (acho que disso escapamos), mas a vida não anda fácil. Daí passei pela portaria e ouvi a conversa do porteiro com um morador. Dois homens de formações e condições sociais distintas que estavam placidamente compartilhando a mesma opinião:

 Os "cara" estavam errados, mas ela também errou. Disse o porteiro, sorrindo de lado, com ares de ter dito uma frase "eureka".
 Ééééé...–  emendou o morador –  se ela passou por isso é porque também gostava muito da coisa. 

Nem que eu quisesse, meu corpo se calaria. Voltei do portão, parei na frente dos dois e disse: O que vocês estão falando é um enorme absurdo. Gostaria que vocês parassem e pensassem no que disseram, por gentileza. E saí...

Saí para esse mundo cada vez menos azul, menos cor de rosa, menos colorido. O que se passa? Alguém por favor me explica porque, do alto da minha experiência de algumas décadas de vida, não consigo entender; porque não sei pensar apenas com a cabeça, não aprendi. Sempre pensei com emoções e com sentimentos também, e coisas assim fogem da minha compreensão, de verdade.

Onde posso dizer, escrever gritar, pintar, desenhar, que mesmo que uma mulher ande pelada pelas ruas, ninguém tem o direito de atacá-la sexualmente; de desrespeitá-la e forçá-la a fazer alguma coisa que ela não queira; de ser covarde com sua condição física e emocional.

Onde posso chorar para mostrar que mesmo que uma mulher decida ser sexualmente promíscua - como os homens são há milênios, à vontade – ; ou que resolva trocar de parceiros na mesma proporção que troca de calcinhas, isso não dá direito a nenhum homem do planeta de forçá-la a fazer sexo com ele sem o seu consentimento.

Onde posso gravar para sempre que atos assim não são uma questão de valores, sexos ou gêneros; são uma questão de humanidade.

A minha vontade, juro por Deus, foi de ficar pelada e sair andando pelas ruas. de ir pelada para a praia, em protesto. Mas lembrei que não estou em uma terra de seres humanos, estou em uma terra de homens. 

2016

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