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31.5.16

Jogo de Cartas


Suas palavras chegaram como se fossem íntimas da destinatária
As observações sutis, precisas, que a distinguiriam
As respostas perfeitas sem tempo (aparente) de elaborá-las
Os sentimentos assanhados de quem fez um grande achado

Era como se ele tivesse acesso a um manual sobre ela escondido
Onde pudesse estudar capítulo a capítulo o que a comoveria
Como uma chave para abrir suas portas transparentes, mas fechadas

E ela se deixou levar, passeou por ali, por ele, por tudo aquilo
Mas foi com a passagem de volta, sabia que iria voltar
Só desejou que durasse mais, antes do final anunciado

Ela sabia que o melhor era o que parecia ser, o que era evocado
Desconfiou o tempo todo e se fingiu de viva para poder jogar
Não era verdade nele, nunca foi, mas foi fato nela, sempre é...

2016

29.5.16

Paraíso dos homens


Eu decidi não expor minha indignação, meu ultraje, meus sentimentos quanto à violência inominável sofrida pela adolescente brasileira estuprada por mais de 30 homens. Decidi ficar calada, andava cansada de qualquer bandeira, principalmente depois de participar ativamente das passeatas que começaram a questionar o governo recém deposto, e de vê-las se esvaziarem por claras sabotagens do próprio governo que pararam, calaram e aquietaram as vozes. O governo eleitoreiro das esmolas que assaltou o país foi reeleito e o trabalho que deveria ter sido feito para impedi-lo de continuar a sua festa, agora foi feito para expulsá-lo e remendá-lo precariamente. Cansei mesmo.

Mas hoje estava indo para a praia, dar um necessário break. Aqui não é a Venezuela (acho que disso escapamos), mas a vida não anda fácil. Daí passei pela portaria e ouvi a conversa do porteiro com um morador. Dois homens de formações e condições sociais distintas que estavam placidamente compartilhando a mesma opinião:

 Os "cara" estavam errados, mas ela também errou. Disse o porteiro, sorrindo de lado, com ares de ter dito uma frase "eureka".
 Ééééé...–  emendou o morador –  se ela passou por isso é porque também gostava muito da coisa. 

Nem que eu quisesse, meu corpo se calaria. Voltei do portão, parei na frente dos dois e disse: O que vocês estão falando é um enorme absurdo. Gostaria que vocês parassem e pensassem no que disseram, por gentileza. E saí...

Saí para esse mundo cada vez menos azul, menos cor de rosa, menos colorido. O que se passa? Alguém por favor me explica porque, do alto da minha experiência de algumas décadas de vida, não consigo entender; porque não sei pensar apenas com a cabeça, não aprendi. Sempre pensei com emoções e com sentimentos também, e coisas assim fogem da minha compreensão, de verdade.

Onde posso dizer, escrever gritar, pintar, desenhar, que mesmo que uma mulher ande pelada pelas ruas, ninguém tem o direito de atacá-la sexualmente; de desrespeitá-la e forçá-la a fazer alguma coisa que ela não queira; de ser covarde com sua condição física e emocional.

Onde posso chorar para mostrar que mesmo que uma mulher decida ser sexualmente promíscua - como os homens são há milênios, à vontade – ; ou que resolva trocar de parceiros na mesma proporção que troca de calcinhas, isso não dá direito a nenhum homem do planeta de forçá-la a fazer sexo com ele sem o seu consentimento.

Onde posso gravar para sempre que atos assim não são uma questão de valores, sexos ou gêneros; são uma questão de humanidade.

A minha vontade, juro por Deus, foi de ficar pelada e sair andando pelas ruas. de ir pelada para a praia, em protesto. Mas lembrei que não estou em uma terra de seres humanos, estou em uma terra de homens. 

2016

21.5.16

Online



Por que não vira um hacker?
Por que não vira um stalker?
Vai deixar as coisas assim?
Por onde anda você agora?
Vai aceitar fácil que parti?
Por que não me procura?

Havia coerência em suas incoerências?
Então era verdade o que me fez fugir?
Vai apenas voltar para a vida de antes?

Como faz?

Você não precisa de respostas?
Sua vida não tem perguntas?
Ser ou não ser?

Tanto faz?

O que vai fazer hoje sem mim?
Para onde irão seus desejos?
Então era tudo mentira?
Então é isso mesmo?

Esse encontro aconteceu mesmo?

Foi só um exercício de eu?
Foi entre nós dois?

Talvez eu fique sem saber
Talvez eu até já saiba
Talvez eu até fique
Talvez eu saia
Talvez doa
Talvez
Ok


2016 







Está bom para você?


A escravatura e a submissão não são mais toleráveis no mundo moderno e quando acontecem atingem apenas os vulneráveis, longe das vistas de quem pode ter voz — hoje se atos como esses forem des-cobertos há consequências e são imediatas e graves. Parece até que o mundo melhorou.Só que não.

Olhando em volta o que vemos são tempos de individualismo total. Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu também. O egoísmo virou sinônimo de liberdade, quando é o oposto, porque sempre fere a liberdade do outro. Estar as voltas apenas em torno do próprio umbigo definitivamente não é a resposta para todos os absurdos que o homem já fez com o próprio homem.

Ninguém aguenta mais nada, tudo está superficial, rápido e chato, Ninguém mais quer gastar tempo entendendo o outro, alcançando quem quer que seja. Tudo tem que ser em modo industrializado, senão não serve. Next!

Mas não ter tempo para o outro e não ter tempo para nós mesmos, afinal somos como um espelho; tudo o que fazemos se reflete em nós mesmos; e isso não é papo de Bíblia, não tem fundamentos religiosos; isso é o que é, isso somos nós.

O melhor caminho é o do meio, é a parceria, o tem que ser bom para mim e para você também. Isso vale para todas as relações: com o trabalho, os amores, amizades, vizinhos, com a sociedade, com a natureza. Descobrir a parceria será como descobrir a roda, ela é que vai nos ajudar a construir, pavimentar, levantar o que teremos pela frente.

Temos que aprender a parar, respirar, perceber, contribuir, esperar. Não podemos querer ter o ritmo das máquinas que usamos ou o clichê dos clichês será fato: as máquinas é que irão nos usar. E para onde iremos? Tem alguém feliz no meio disso tudo? Não estou falando dos momentos de exceção, dos prazeres das viagens incríveis, da diversão com amigos,do abraço de um querido, de um bom livro, de um delicioso vinho. Afinal, isso é para quantos? E podemos fazer isso o tempo todo? Estou falando do dia a dia, do todo dia, da vida na rotina. Está bom de verdade para alguém?

Por isso, o final dessa conta para ser positiva e valer a pena tem que ter parceria, tem que passar pelo outro. O que você faz tem que ser importante também pela contribuição do outro e tudo deve ser reconhecido e retribuído. A nova identidade tem que incluir mais de um , senão não vai dar certo. Vamos subtrair, subtrair até zerar, até não sermos mais nada. E isso não é pessimismo, nem praga, é matemática!

2016

14.5.16

Decisão



Arranque a página.

Algumas vezes só virar não basta...


2016

Foto: “Lesson of History” (2012) de Agatha Michowska

13.5.16

Um pouco mais de tempo...


Um pouco mais de tempo

Para você não pensar em como ainda quer muito tudo o que não aconteceu
Para você desconsiderar tudo que podia ter mudado os planos traçados
Para você não sentir o desejos dos beijos apenas ensaiados

Um pouco mais de tempo

Para você continuar esquecendo o baque de me ver
Para você não perceber que a sua vontade de fugir é o contrário dos verdadeiros sentimentos
Para você não reconhecer as escorregadas das suas palavras, dos seus tempos, dos seus silêncios

Um pouco mais de tempo

Para você não contrariar sanidades estabelecidas
Para assumir a saudade vencidas e comprar uma passagem agora
Para me ver, e se ver, com tudo o que realmente quer e com tudo o que podemos ser.

Take your time, babe.


2016

3.5.16

Episodio 08


Hesito
Só vejo coisas embaçadas à frente
Nada tem forma, onde me seguro?

Cerro os olhos
Da janela a luz entra exagerada
Todos os caminhos parecem o mesmo lugar, como saio daqui?

Respiro fundo
O corpo dói, não quer ir a lugar algum
Eu não quero ir a lugar nenhum

Levanto
Faço um acordo com o que está funcionando
Vamos seguir em frente

Saio
A vida ganhou dos meus pedaços
Mas não me rendi

2016