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28.2.16

Acareações



Pertenciam a planetas distintos. Se encontraram ao acaso no espaço entre eles. Por alguma razão, que parecia ser das melhores, se conectaram. Passaram então a se explorar virtualmente via pulsos, fótons, bytes, chips, máquinas.

Depois de dezenas de dias compartilhados em correspondências de todos os tipos: mensagens, imagens, cumplicidades, músicas, fotos, emails, confissões, diálogos, risos, silêncios, discussões, revelações, encorajamentos, concessões; estavam ali os dois, um diante do outro, na real. Não era mais potência, era vida, verdade.

E agora? O que ele ia fazer com o que cativou? O que ia fazer com aquela grandiosidade que claramente não cabia no pequeno espaço destinado apenas à sua fugaz curiosidade.

Ele devia ter consultado e sido honesto com as suas reais motivações. Afinal, permitir-se ir de encontro e se entregar a algo inteiramente novo exige uma liberdade que só é possível se desapegarmos do passado; e o passado é sempre muito confortável. 

E então começaram um outro ciclo, totalmente descompassado e obscuro. Emoções espontâneas cegavam tanto quanto as que eram compulsivamente negadas; umas a deixavam complacente, as outras o tornavam cruel.

Ela rejeitou as primeiras impressões tortas, preferiu acreditar na coerência do plano original ensaiado, mas o que realmente acontece é o que fica registrado. Não são as projeções, o que é percebido, evocado, nem o que foi emitido, mas os fatos.

E o fato é que ao mesmo tempo que ela o encantava, provocava nele um estranho e irresistível desejo de puni-la; e então, seguindo a sua própria coerência, ele foi desfazendo o que tinha sido subjetivamente construído com doses objetivas de opção por não dizer, não corresponder, interromper, desviar, não ouvir...

Havia um certo prazer nos olhos dele, no canto da sua boca, na variação da sua voz; um prazer em desmontá-la, desbancá-la, frustrá-la; em desautorizar suas percepções; em banalizar suas emoções; em fazê-la de tola.

Ela sentiu, recuou, lutou para tentar recuperar a beleza "comprada" e perdida, mas não investiu muito. Machucou, mas logo entendeu que aquele roteiro ficaria entre o ordinário e o doentio e reagiu. Encurtou, ficou com a metade das cenas e saiu antes do final, assim que percebeu que não haveria um começo.

Acabou. E então foi necessário rebobinar as cenas, voltar aos cenários, refazer sequências, entender consequências. Deixar tudo em uma correta perspectiva para o processo avançar até limpar todas as impressões e vestígios.

Não houve vítimas, não houve algoz, e sim uma morte natural por falta de oxigênio. Não foi importante, mas ele nunca mais seria frívolo tão facilmente; e ela não voltaria a ser tão intensamente sincera e sem reservas. Não foi um caso, apenas percalços para mexer nos próximos dados de ambos.


2016



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