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6.7.15

Fog



A frase ecoava em sua mente, enquanto ela andava em círculos pela cidade. Ele já estava fora há mais de um ano e tudo o que recebia dele eram apenas curtidas em posts aleatórios que ela publicava em suas redes sociais, como puxadas de ar. Ele comentava muita coisa de muitos amigos, mas nada dela. Quando o fazia eram frases genéricas em posts genéricos, nunca em expressões mais pessoais.

Ela se sentia como um brand admirado por um consumidor eventual, daqueles que compraram apenas uma pequena e interessante peça, sem gastar muito, por oportunidade, e jamais retornarão à loja, embora fiquem de alguma forma ligados a ela para sempre.

A última vez que se viram era tudo o que ela tinha. A intensidade, os olhares que escaparam, os suspiros que abafaram o que jamais seria dito; o corpo que o traiu no último abraço e puxou o corpo dela não uma, nem duas, mas três vezes para junto dele, enquanto beijos se arrastavam em seu rosto, fazendo força para não tomarem outros destinos.

Enquanto ele arrumava as malas e tomava um avião, aquela despedida que deveria ser um ponto final foi uma espécie de começo para ela, como se acabasse de ganhar um passaporte para os sentimentos dele. Uma pequena concessão que liberou seus desejos, projeções, perspectivas. Ela ficou assim por semanas, rebobinando a cena e tudo o que ela tinha evocado; revendo à distância cada detalhe, como se estivesse diante de uma TV sem som e sem cores de um aeroporto qualquer.

O tempo passou. Fragmentos se espalharam aqui e ali. Perderam-se. E um dia, de volta, andando pela rua, ela finalmente se deu conta de que não tinha nada para se desapegar, não tinha o que esquecer, não tinha nada para procurar ou perder. Não era amor, era só uma forte lembrança.

2015