Posts recentes...clique...navegue...explore!

8.3.15

Isaura e o Tempo...


Isaura estava com 30 anos, solteira e sem filhos, porque preferia viajar o mundo a ter que fazer parte do mundo de alguém.

Independente, vivaz, inquieta e obcecada por liberdade, ela era naturalmente arisca a relacionamentos, embora sempre discordasse que isso era verdade.

Fato é, que os prazeres de Isaura com as novidades de diferentes nacionalidades não cobriam sua carência de apoio, cumplicidade, abraços sem datas ou romances.

O que vivia em suas andanças nunca ia além de algumas páginas, mas um livro inteiro escrito era o que mais desejava. E o tempo, que não estava nem aí para os reais desejos de Isaura, simplesmente passava.

Isaura olhava interessada para qualquer homem de algum valor que por ela passasse. Ao se aproximar, com pretextos esdrúxulos e mal ensaiados, estabelecia uma paixão repentina e a vivia sozinha dentro de suas retinas.

Isaura via e acreditava apenas no que queria, na verdade, ela não queria se doar, só queria exercitar o verbo amar. Ela era por demais libertária e libertina para amarrar-se, então para ter controle total sobre o seu enredo, se contentava em inventar.

Mas a questão é que para seu corpo aquele bando de amores fantasiados não bastava; ele só reconhece o que é vivido de fato e de nada adiantava tanto enredo sofisticado. Por isso, Isaura padecia não de amores, ou da falta deles, mas de dissabores carnais.E o tempo, que não estava nem aí para as resistências de Isaura, simplesmente passava.

Irritada por perceber que estava refém do próprio corpo, Isaura evitava ainda mais qualquer possibilidade de um encontro real; só se interessava por quem era impossível e de quem chegasse mais perto ela corria. E seu corpo sofria, perdendo a luta para Isaura dia a dia. Na verdade todo o mundo perdia. 

Quando sentia-se tonta de calores, desejos e volúpias, Isaura os aplacava com uma espécie de feitiço que juntava incensos, música, cartas invisíveis, poemas rasgados e uma intensa produção de pães, patês, assados e guisados. Tudo cuidadosamente temperado com pimenta, ervas e muita salsa!

Depois do preparo, Isaura ficava horas dançando, escrevendo e cozinhando até seu corpo cair na cama exausto, rendido e mais uma vez inconformado.E o tempo, que não estava nem aí para as fugas de Isaura, simplesmente passava.

Deus deve ter se equivocado ao escolher esse espírito endoidecido para habitar esse corpo feminino que, como tal, também tem seus próprios desvarios. Isaura sentia-se uma estranha mistura de guerreiro medieval com uma arteira borboleta e, no meio do caminho desses extremos, não conseguia sossegar. 

Isaura não se achava triste, mas percebia que estava longe da felicidade de sentir-se completa. Ela não sabia ser mulher, só sabia ser Isaura. E o tempo, que não estava nem aí para as angustias de Isaura, simplesmente passava.

Uma década depois, lá estava Isaura a sacudir-se dentro das saias incensadas, embaladas por música e apimentados sabores, quando de repente tudo cessou. Isaura caiu nocauteada por uma dor no peito tão lancinante que o abriu em duas partes, arrancando-lhe o coração. Primeiro ela achou que estava morrendo, mas logo depois notou que sentia-se melhor, apaziguada, quase feliz. Isaura então levantou-se do assoalho da cozinha e continuou a vida. 

Mas após a queda, Isaura nunca mais viajou, dançou, ouviu músicas, escreveu ou cozinhou quitutes e iguarias. E o tempo, que não estava nem aí para as escolhas de Isaura, simplesmente passou.  

2015