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27.4.13

O beijo

The Kiss - Auguste Rodin
Tascou-lhe um bilhete de amor à queima roupa. Talvez precipitado, sem encontros marcados, sem avisos sinalizados. Na verdade, tratou-se de um combinado (quase) à sua revelia; um conluio entre as palavras e os sentimentos a favor de um certo desejo. 

O bilhete foi na carona de um livro emprestado. De fato, o assunto deveria ser restrito ao trabalho, mas desejos sempre têm pressa e quando acham um chofer são assim: escolhem sempre o caminho mais rápido. 

Nos dias que se seguiram, não houve nenhum tipo de resposta ou comentário do destinatário. Ele deveria ter desconfiado, mas sabemos que um ser enamorado não lê com clareza nem outdoor. 

Mas havia a festa do tal trabalho compartilhado; eles tinham data para se encontrar. Ele queria muito isso, mas a oportunidade que antes poderia ser uma celebração, agora ameaçava tornar-se um constrangimento. Aquele doce gosto de framboesa, de repente, amargou. 


Pensamentos desconcertantes fizeram a festa bem antes na cabeça dele: Será que ela o achou ridículo, inadequado, invasivo, canastrão, tarado? Será que tinha namorado? Que estava de casamento marcado? Vai saber. O que importava agora qualquer coisa dessas. Estava feito. O bilhete estava escrito, entregue e lido. O soldado raso já estava na frente da batalha, totalmente desarmado. 

No dia da festa, lá estava ela, mais bonita do que em qualquer outro dia, mas sem o menor sinal de conexão. Logo que se viram, tudo o que ele ganhou foi um genérico aceno orquestrado. Em outro momento, quando das mãos dela saíram uma das champagnes da comemoração, ela encheu todos os copos próximos, mas o dele permaneceu vazio bem ali ao seu lado. 

Ele bem que tentou dirigir-lhe uma frase ou duas, mas ela respondia pela metade, com olhos incompletos e um tom sempre desinteressado. Nada adiantava. Não havia mais ponte entre eles. O bilhete o havia sitiado. 

Antes do final da festa, ele resolveu ir embora. Foi interceptado. Ela o chamou, pronunciando o nome dele com certa hesitação, como se não tivesse certeza se sabia o seu nome correto. Maldade. Ele já estava satisfeito com pelo menos meia dúzia de não em três vias carimbado. 

Ele parou, virou-se para ela, puxou a gola do casaco para cima e enfiou as mãos nos bolsos, tentando proteger-se daquela noite subitamente fria. Ela então começou um cirúrgico discurso sobre como foi importante e útil o tal livro emprestado, como ele beneficiou imensamente o trabalho e... 

Ele não a ouvia mais. Vê-la a bordo daquele amontoado de frases eleitas por voto indireto, ditas em tom formal, quase impostado, deu-lhe a exata dimensão do estrago. Ele a olhava em silêncio e, de verdade, lamentava ter escrito o (agora maldito) bilhete que desarrumou as coisas e não foi para colocá-las em um lugar melhor. 

Sua atenção voltou, quando ela subiu um pouco a voz ao terminar o tratado ensaiado: “Foi mesmo muito atencioso da sua parte, me enviar o material. Mais uma vez, obrigada!” 

Ele respeitou o novo idioma, respondeu um econômico “de nada”, se encolheu um pouco mais e partiu. 

No caminho de volta para a sua vida de antes, ele tirou um pedaço de papel do bolso do casaco e o amassou com força, antes de arremessá-lo em direção a um lixo próximo. 

Ali jaz o seu último bilhete para ela endereçado. Não. Ele nunca pensou em entregar a ela um novo bilhete apaixonado. Ele o escreveu apenas para arrancar da boca aquele beijo calado.

2013