Posts recentes...clique...navegue...explore!

26.4.13

Fragmentos (2)


Sexta à noite. Na mão uma taça do meu vinho preferido. Na TV, qualquer coisa. Meu corpo e minha mente estão confortáveis no sofá. Celebro a minha paz. 

Um barulhinho conhecido sai do meu celular. Ele está vivo. O mundo deve estar também. E eu aqui, dissimuladamente morta. Delícia. 

Pego o celular. Tudo o que eu vejo registrado no visor é o nome do remetente da mensagem e um ponto. Isso mesmo. Apenas um ponto. Levo a sério. Nem de longe penso em responder. Não vou escrever esse enredo, mais uma vez, sozinha. Conheço o final. Se não tem coragem, meu caro, que seja esse então o ponto final. 

Volto à TV. Fico zapeando. Quero encontrar um filme inspirador, um romance dos bons, uma emoção de baixo custo. Adoraria rever pela milésima vez o filme ‘Orgulho e Preconceito’, baseado no livro de Jane Austen. 


O fato é que não sou capaz de me acostumar com a falta de sutilezas e de originalidade nos interesses. Estou com intolerância ao sexo sem endereço, à falta de educação, às emoções pulverizadas. Desde quando o amor virou matéria exclusiva dos filmes e livros? Não. Se existe alguém como eu por aqui, deve existir outro da mesma matéria-prima por aí. E afinal, é possível dezenas de autores de variados séculos, gêneros, gerações, culturas e idiomas conseguirem escrever sobre algo que não podemos viver? 

A semana passa... 

É sexta. Desmarquei o chopp com amigos. Tenho adorado a minha própria companhia. Escuto meu CD favorito. Na falta do filme, releio os diálogos instigantes de Mr. Darcy e Elizabeth. Brinco com o meu cachorro. O telefone toca. Um longínquo ex-grande amor continua a fingir que não destruiu a nossa soma de dois. Você vai mesmo comigo para Paris no próximo mês? Suspiro. Ele continua. Não precisamos ficar juntos. É um presente. Só quero ver a sua carinha quando conhecer a cidade que tanto ama. Você vai? Acho que sim. Você é a única pessoa do mundo que tem que ser convencida a ir a Paris. Fico monossilábica. Sei que não vou. Ele sabe também. Viro a página. 

A semana passa... 

Sexta pela manhã. Chego para a reunião do projeto da nova filial da empresa que trabalho. Entro na sala, levemente atrasada; quando vejo o arquiteto sinto na hora uma inegável conexão. Me desconcerto e começo um estranho exercício de enumerar as coisas que acho que me desagradam nele. A reunião prossegue. Nossos corpos, de longe, iniciam uma conversa paralela. Não acredito. Misturo-me ao grupo. Projetos, metas, determinações, tarefas. 

A semana passa... 

É sexta! Vagueio no Facebook. Taça de vinho na mão. Não quero comentar nada de ninguém. Hoje deve ser o dia internacional da bobagem. Resolvo passar uma mensagem inbox para meu melhor amigo. Quero contar a viagem inesperada que marquei. Digito o nome dele no campo de pesquisa. Aparece um homônimo. O conheço, mas desconheço o motivo do nome dele aparecer assim, do nada. Já fomos colegas de faculdade, namorados, amantes e, por fim, “ficantes” em generosos 25 anos de encontros, desencontros e reencontros. Mas hoje ele não pertence ao feed de notícias da minha vida. 

Na última vez, o moço me procurou com ares de finalmente! Cheguei a achar que podia ser um daqueles amores sem prazo de Jane. A partir daí, alternávamos encontros maravilhosos, regados a sexo intenso e conversas boas sobre a vida e livros, com ‘perdidos’ que desprezavam toda a alta tecnologia do mundo globalizado. Por dias nada de telefonemas, mensagens, emails ou sinais de fumaça. Ah é? Gelo! Ele se desesperava. Aí sim, ele usava tudo ao mesmo tempo agora na tentativa de fazer contato. Parecia até que tinha 6 braços, 3 bocas e algum coração. Eu resistia. Ele insistia. Eu cedia. O ciclo se repetia. 

No terceiro enredo repetido, tomei a iniciativa. Enviei uma mensagem perguntando se aquele “cachimbo era mesmo um cachimbo”. Ele reapareceu urgente. Atencioso. Preocupado. Charmoso. A mensagem de volta era longa e garantia que ligaria assim que acabasse a reunião que estava. Respondi um sincero não precisa. Ele enlouqueceu. Mandou dezenas de mensagens. Não respondi. Ele ligou. Disparei. O que você está me oferecendo não me interessa, minimamente, baby. O quê? É isso mesmo. Você achou que eu era uma “nega” que você conheceu na Lapa? Você não é companhia para o meu vinho. Ele gaguejou de raiva. Desliguei. 

A semana passa e outra também... 

É segunda-feira. Estou no supermercado, no setor de bebidas. Um flash do arquiteto invade a minha mente. Recordo que na reunião final do projeto tive a impressão de que, entre demonstrativos e desenhos, ele me observava em conta gotas. Em outro momento, quando ele se debruçou próximo a mim para pegar uma pasta, senti uma energia quase material nos unindo. Será? Elaboro uma nova lista de coisas que não gosto nele. A primeira já não me lembro. 

Já em casa, outro flash. Lembrei que quando ele tomou a palavra para explicar detalhes e apresentar a maquete, aproveitei o álibi para olhá-lo inteiro. Reparei no seu tom sério e objetivo; no bom humor e no sorriso amplo que exibia, quando se descontraía; no desenho do seu cabelo; no contorno dos seus braços; na dobra errada da calça social que usava; no contraste da sua camisa branca impecável com o sapato desamarrado, levemente sujo. Ele parece meio bossa nova e rock’n roll. Eu gosto. 

Estamos agora em um calendário sem datas marcadas. Penso na minha viagem na próxima semana. Não me mexo, apenas observo.

2013