Posts recentes...clique...navegue...explore!

14.12.13

Ponto Final



Um olhar demorado na direção dele, seguido de um suspiro organicamente longo selou a despedida. Ela desistiu e partiu naquela noite que parecia ser um celeiro de oportunidades, mas que ela já sabia que no final ia ser apenas um espaço vazio de frustrações. Ela cansou de tentar, porque tentar cansa, bloqueia movimentos, atrasa cursos; ela cansou de esperar em portos, segue em frente, escolhe outros navios.


Ela balançou com a indisfarçável comoção dele quando a viu, ficou sacudida quando em um salão gigante ele escolheu passar exatamente no quadrado que ela ocupava, arrastando o pescoço a centímetros do seu rosto. Mas, seu corpo decidiu por ela e saiu do quadro em que ele estava, partindo resoluto em direção à rua úmida e desaconchegante.



Sua silhueta aparecia nas sombras, menos esguia, menos vibrante, mas de alguma forma mais nítida, mais consistente. Os suspiros não paravam, como se quisessem expulsar em conta-gotas as possibilidades agora para sempre abandonadas.

Imagens, sentimentos, lembranças, desejos e conclusões travavam uma luta em sua cabeça, mas não havia mais golpes, acabaram chegando a um acordo qualquer e foram se apaziguando. Em algum momento, sentaram todos naquela calçada mal iluminada e deixaram ela ir apenas com as saudades de tudo o que poderia ter sido.

As horas passaram, ela caiu na cama e dormiu não antes de mais um suspiro. No dia seguinte, acordou meio doída com uma incômoda certeza, a mesma de quando sabemos que não é mais possível vermos alguém que amamos e que não vive mais.  

2013

22.11.13

Trocas

As imagens dele nos meus pensamentos são como um videoclipe tátil. Vejo e sinto pedaços de pescoço, partes de pele e de cabelos. A resposta da pergunta que fiz a mim mesma, a partir de um livro que estou relendo, sobre o que eu mais queria fazer com ele é essa: misturar-me em abraços perfumados por seu cheiro, em movimentos desordenados, sem forma, afetados pela textura da sua pele imperfeita, da sua barba, da sua roupa mal passada.

Quando penso em sexo com ele a imagem é menos fragmentada, na verdade é bem focada, intensa, cheia de ritmos combinados, com corpos quase sempre na vertical, inclinados, recostados, safados, provocando expectativas, convenções e estabilidades físicas. Um sexo com muito rosto no rosto, com muita proximidade, temperado com respirações aquecidas, vozes baixas e altíssimos teores.

Não, não há nada nem remotamente convencional nesse encontro que insiste em não ser casual, em surpreender pelo que evoca e em não acontecer de fato. Seria um encontro intelectual-poético? Quem sabe um encontro apenas lúdico? Um encontro de afinidades? Um encontro de desejos? Mas jamais um encontro realizado?

E o que seria realizar alguma coisa? Tudo o que acontece ao redor dela já não em si puro acontecimento? Precisamos de palavras, de toques, de ações, de roteiros? Ou o que é sentido, percebido e vivido em outras esferas também é fato?

São muitas perguntas, mas as respostas pouco importam. Sim, a falta de um enredo minimamente escrito volta e meia me convida a desistir. Mas a liberdade das não promessas me convida a investigar. E aqui estou eu entre a curiosidade aventureira e o conforto da entrega dos pontos antes mesmo do jogo. Só penso naquele odor que exalou daquele abraço, que nada tem a ver com razão, pensamentos ou letras. Só tem a ver com misturar-me com ele sem a menor pretensão de me achar ou me perder.

2013

7.10.13

Telegrama


Com breves palavras minhas lacrei nosso passado. Não havia mais o que dizer; os sentimentos arrombaram a porta e silenciaram o outrora. Estava claro que nos amávamos ainda, talvez até mais, mas também era evidente que fizemos tudo errado. Não podíamos recomeçar, era essencial zerar.

Até aqui seguimos roteiros que não escrevemos; tivemos atitudes ensaiadas por nossos antepassados, exigimos o que nem queríamos. Não sabemos quem era aquele casal que ousou viver nosso amor particular em nosso lugar. Para libertar o que em nosso peito explodia, e que contrariava o enredo até então apresentado, acabamos por nos transformar em nós mesmos. Um presente raro.

Descobri que eu não era ciumenta, como aquela mulher que a tudo vigiava, percebi que nem ligava se outras perto dele chegavam; realizei que não me incomodavam seus eventuais olhares admirados. Aquele homem estava vivo, seu sangue pulsava, seu gosto pessoal a tudo permeava, independente, mas era a mim que ele desejava, deseja, e desesperadamente quer. Por que bradei tanto contra nada?

Ele também se debateu, e então se aquietou; percebeu que minha individualidade exacerbada não é falta de amor, é excesso de amor próprio, indenização por um histórico familiar abusivo; fisgou que minha ideia emperrada de quartos totalmente separados, que não aparta quem quer ficar junto de fato, não é má, é ordeira das vontades diferenciadas de dois seres criados em desiguais planetas.

Descobrimos que somos ímpares no mundo e distintos de tudo o que pensávamos sobre nós mesmos. Respeitamos as impressões digitais de nossas existências, deixamos o medo de lado e, com ele, a confortável certeza das regras. Emprestamos nossos dias à deliciosa curiosidade de viver um amor por caminhos não traçados.

Não precisamos mais discutir, competir, determinar, cobrar e tampouco entender. Conhecemos nosso amor; fomos a ele devidamente apresentados. E foi assim que com breves palavras minhas lacrei nosso passado.

Oi, tudo bem? Meu nome é Céline. E o seu?

2013

Toque


O contato com a Natureza nos ensina a sentir...



2013

5.10.13

Vício bom


"Você sabe que um encontro é verdadeiramente especial
 quando, de repente, para e pensa:  posso viciar."


2013

Hora certa.


"Você está preparado para ser feliz quando não tem nenhuma dor no seu peito. 
Se alguma coisa dói, não é a hora ainda."


2013

Percepção.


"Não há nada mais doloroso do que ver alguém que amamos negar ajuda e escolher o erro."

2013

Fato.



"Eu gosto de gente fora da fôrma."


2013

Dial


"Quando você abre o seu canal não pode ter medo de entrar em sintonias que não te interessam. Continue a navegar no dial sem medo de encontrar a sua música preferida; ou de esbarrar com uma desconhecida que vai te conquistar logo nos primeiros acordes."


2013

27.9.13

Sopro de oração.


"Que Deus me ajude a conseguir ser o resto de mim."


2013

25.9.13

Doce Imoralidade.


"No final das contas é imoral esperarmos respeito aos NOSSOS valores. de quem não tem direito a estudar, comer bem, morar com o mínimo de conforto; ou de quem desconhece o que é ter infância, o que é ser cuidado e amado; ou de quem é obrigado a achar que o futuro é apenas o dia seguinte. Que conta imatemática é essa que insistimos em fazer?"

2013

3.8.13

Tango Flamenco.


E aqui estou eu,
na terra de outros,
expatriada,
buscando em outras margens
um sentido para um inconcluído poema.

Depois de milhas e milhas
de singularidades estrangeiras,
outros sorrisos,
outros homens,
outras gentilezas,
estou aqui pensando nele
como no exato momento em que parti.

São pensamentos flamencos,
cortados por um lamento doído
que nascem na fonte do que se foi,
do que nunca foi,
do que não será,
do que não está aqui.




2013

9.7.13

Poemas de amor não existem!



Poemas de amor existem?
Se existem falam de quê?
Da felicidade, do céu azul e dos mares?
Poemas de amor não existem porque são chatos!

E quem vai querer ler um poema de um amor que é de outros?
Quem pode regozijar-se com uma alegria que não lhe pertence?
Poemas de amor não existem porque são abstratos!

Poemas de amor discursam sobre amores idealizados;
confortáveis sentimentos platônicos,
estáticos por não serem correspondidos,
ou simplesmente inalcançáveis.
Na verdade, o que existe são poemas sobre amores desagradáveis,
poemas de desamor!

Afinal, se alguém está ao lado de outro alguém que lhe inspire tal tema,
não se deterá a fazer poemas, se abandonará a fazer amor.

2013

Por todos os poros...



Ela se declarava por todos os poros.
Fazia passeatas, ostentava cartazes.
Diziam até que tinha no corpo uma coleção de tatuagens

Quando no centro da metrópole uma roda se formava, ela era que desinibida sambava e cantava.

No fim de semana na praia, flanando alegre nos aviões, lá estava sua paixão em coloridas bandeiras escancarada.

No dia a dia, todos ficavam intrigados com as figuras abstratas recorrentes nas estampas que usava. Ela explicava, entre gostosas gargalhadas, que eram sobre um amor, um peito e uma flecha.

As horas passavam apressadas, enquanto ela compartilhava pensamentos, crônicas, poemas e cartas abertas. Ela não renunciava.

Sim, ela se declarava por todos os poros; enquanto ele sempre dizia a mesma coisa quando eventualmente a via: Oi querida, como vai a sua família?



2013

8.7.13

Entre amores



Há amores que são donos das nossas melhores lembranças
Há amores que com meros pensamentos nos arrancam sorrisos
Há amores que nos dão outros amores, filhos
Há amores que provocam a nossa alma com lágrimas
Há amores que só prestam como centelhas de poemas

Mas tudo vale mesmo a pena?

Se o coração ama
Se o coração respira
e oxigena a vida
Vale!


2013

6.7.13

Os escritores...


E os dois se reencontraram entre livros. Ele em uma turnê promocional, ela em uma pesquisa para um novo trabalho. Quando os olhares se esbarraram, ambos ficaram constrangidos; ele desconcertado (como sempre) com a certeza do interesse dela, ela atrapalhada com o súbito aumento de temperatura que a presença dele sempre lhe causava.

Sem ter como desertarem daquele momento descombinado, se cumprimentaram, sorriram e elegantemente disfarçaram. Podiam ter parado ali, afiançados pela cordialidade e por um estudado espanto pela coincidência. Mas, destituídos de matemáticas exatas, continuaram conversando e acabaram relaxando em temas amenos em uma distância tacitamente calculada por ambos.

Mas o destino pretendia se divertir mais: colocou os dois juntos não só em uma cidade alheia ao cotidiano de ambos, mas no mesmo quadrado de um hotel. Ao se darem conta, os risos ficaram nervosos, mas foram aplacados por aquele ensaiado enredo desinteressado escrito a quatro mãos. Acabaram jantando juntos e tudo foi ficando perigosamente irremovível.

Mas, tratava-se de dois escritores supostamente eficientes no controle de seus escolhidos personagens. E assim passaram as horas, o dia caminhava para o fim e, no seguinte, eles estariam livres daquela história não escrita. Mais tarde no hotel,  um café alongou a conversa, depois outro, e por fim um último. Sem drinks, sem maiores teores, sem inconvenientes descontroles. 

E então veio a formal despedida, orçada e aprovada pela vida de antes. No elevador,  subitamente, como uma cena de milhares de filmes ruins, ela cortou uma frase dele no meio e deu-lhe finalmente o beijo. Ele ficou imóvel, confuso entre a honestidade dos seus compromissos e a desonestidade dos seus desejos. Sem o aval de uma reação dele, ela se desculpou pelo "excesso" e esperou em desgraça a chegada do seu andar.

E quando seu corpo já estava quase escapando daquele improvável romance, foi ele quem a puxou, rendendo-se  não com um, mas muitos beijos, todos improrrogáveis. Chegaram ao quarto navegando nas entrelinhas de palavras nunca ditas.

Ela se surpreendeu com a sensualidade dele, talvez represada pela formalidade da sua mordaz intelectualidade. Para ele também foi uma surpresa a suavidade encontrada naquela mulher de opiniões fortes e gestos determinados. Ambos se surpreenderam com a quantidade de abraços demorados no meio daquele sexo quente. 

E então, depois do dezenas de parágrafos escritos,  a mão dele em expedição tocou uma curvinha perfeita da bunda dela, arrancando-lhe um suspiro alto.

- Mas o que é isso, meu Deus!?

- Pilates, ela respondeu divertida.

- Promete que vai manter isso exatamente assim para mim? - Ele sussurrou colado ao rosto dela naquele momento de pura exceção.

Eles voltaram a se encaixar, enquanto as mãos dele a seguravam com força. Escreviam novas linhas dessa história, apenas mais um capítulo de um enredo aberto, sem perguntas, sem respostas.

2013

9.6.13

Um cheek to cheek com você. - Por Vianne Rocher


E eu que tinha ficado sambada, depois que um certo alguém bateu em retirada do conceito original de um amor inventado, me peguei hoje em um cheek to cheek com outro que me abateu com seu charme fácil. É bom deixar claro que esse fácil não é igual a vulgar; é igual a descomplicado.

Fato é que um homem fica ainda mais homem quando te enxerga fêmea: alvo merecedor de delicadezas, considerações e destaques; quando nada precisa ser muito discutido, nem explicado; quando cada um coloca na mesa suas melhores cartas não para competir, mas para criar um particular baralho.

Quando um homem fica relaxado a ponto de perceber as notas de uma mulher, como se desvendasse uma invulgar fragrância, é o momento em que ela também torna-se mais receptiva e mais singular. E é nessa fração de momento, quando ao invés de procurar se reafirmar, ele escolhe perceber e sentir, que um descobrimento pode acontecer e fluir; no melhor e mais exato sentido que essa palavra pode ter.


Tenho observado que a maioria dos homens está preferindo procurar as diferenças, as faltas, os excessos ou garantidos "pedigrees"; mas há alguns que deixam brotar as afinidades, investem nelas e , sobretudo, se surpreendem; vão de encontro às novidades, não chegam preparados para resistir aos passos que já definiram como o futuro.

Sim, são dois pra lá, dois pra cá, mas também podem ser três para um lado e quatro para o outro. Estou em pleno cheek to cheek com você, baby; coladinha ao sabor das curvas, da temperatura e do ritmo. Me pego mais alegre e mais leve por ser tudo tão prazerosamente natural; não importa para onde estamos indo, o que importa é que estamos dançando.


2013

2.6.13

Safadeco, safado ou safadão? Por Vianne Rocher

Safadeco, safado ou safadão?

Caríssimo Lucrécio Armando,

Como eu já havia dito em crônica de outrora, meu ser é adoravelmente tranquilo até ter motivos para ser bem malcriado e você, querido, implorou pelo meu lado B! Muito sintomático você dedicar seus "loopings" e sua "tensão vocabular" à primeira regateira que resolve gastar português com você. Afinal, faz muito pouco que há confessado, depois dos meus febris desejos desvelados, que é "movido, como qualquer macho da espécie, pelo medo."

Ora, ora, seu safadeco safado, acreditou mesmo que eu iria deixar barato ver você transformar nosso samba-jazz em sambalelê? E então qualquer 'cadência literária" de uma "delícia da hora" pode mexer e remexer com nosso caso como se fosse um banal mingau encaroçado? E você não sabe que até as melhores moquecas se estiverem por demais apimentadas ficam impossíveis de serem apreciadas?



E eu achando que você, querido, iria se destacar no meio dessa mesmice reinante de "vem aqui para o meu suflê". Para tudo, Lucrécio, seu safadão absurdo. Não será mesmo uma cantada requentada ou vulgaridades intemperadas que vão deixar os meus hormônios afiados. Achei que você estava mais para patisserie do que para padaria de bairro, vejo que me equivoquei.


Mas se você pode escrever "um livro inteiro" e "tornar-se escravo" de alguém que gastou com você pouco mais que um parágrafo, ah meu amigo de "parachoque duro", divirta-se com seus fast foods; para você agora todos os meus ingredientes estão fora do cardápio!

2013

23.5.13

Safadezas, sabores e delícias. Por Vianne Rocher


Por Vianne Rocher


Ah...Lucrécio, um dos ditados que mais amo na vida é o "cuidado com o que você quer, porque você pode conseguir". Não foram poucas as vezes que recebi cantadas perseverantes, atenções realçadas, verdadeiras configurações de dias inolvidáveis e no H da hora, do homem e do hoje, nada!

O fato é que as pessoas adoram desejar; querer o que lhes parece impossível; arquitetar engenhosas formas de obtê-lo para, em seguida da conquista do objeto, perecerem e voltarem remansadas para suas vidas ordinárias. Afinal, atirar-se à falta de contornos exatos de uma paixão incomensurável é coisa para quase nenhum!


Você, meu safadeco amado, em busca de águas raras atravessa terras, pula muros, se prepara para arrombar portas mas, se por um comparsa acaso elas já estão abertas, hesita um pouco com a surpresa para depois avançar com sede ainda maior na empreitada. E só intrépidos como você, meu caro amante temperado no dendê, descobrem as delícias do outro lado; ampliam a estreiteza dessa vida roteirizada e gozam na escuridão.

Por isso estou desatinada à caminho do seu ser. Agora que entrou, seu safadeco-gostosildo, pode ficar quietinho ou levado; amoroso ou desembestado; cachorro faminto ou poeta inspirado; regado a vinhos caros ou a aguardentes baratos. Tanto faz. Entre silêncios, espasmos e deleites, quero todos os sabores de você!

2013

20.5.13

Lucrécio, meu safadeco. Por Vianne Rocher.



Solteirinha da Silva, andava meio enfastiada com a falta de singularidade dos xavecos. Não conseguia mais ser audiência para interesses genéricos que à menor resistência, talvez buscando apenas um pouco mais de apuro, virava logo um tanto faz como tanto fez. A companhia de um copo de bom vinho, um livro querido, ou um filme agradável, estava sendo melhor do que ficar à mercê de galanteios degenerados.

Mas mesmo tranquila e inebriada com meus simplórios entretenimentos eleitos, volta e meia sentia falta de alguma coisa; na verdade alguma coisa de homem. Não, não era de sexo, porque isso nenhuma mulher que realmente quer tem dificuldade de obter; isso é fato.Também não era de carinho, porque isso também conseguimos da família, de amigos e até de desconhecidos educados. 

Sem entender aquela sensação de pouquidade, enchi mais um copo de vinho e resolvi ler umas crônicas alheias. Me diverti aqui e ali, me encantei aqui e acolá, até chegar a umas palavras deliciosamente insensatas que me responderam na lata o que tanto me faltava!

Aquela crônica extraordinária me encheu de energia com seu palavreado abusado, suas sacanagens descaradas, suas promessas de noites imoderadas. Era um show de sedução verbal. E eu aqui toda quieta, no meu canto enroscadinha, me peguei rindo à toa com aquela intervenção das letras que quase me arrancaram as roupas. 

Então é isso.O que eu estava sentindo era falta de arroubo! E como você o tem, meu caro safadeco. Isso mesmo, inventei um apelido apimentado para flertar com você logo no primeiro ato. O que posso fazer se o o arrebatamento das imagens de suas frases barganham o meu azeite virgem por puro dendê? Para que fugir, se o seu tom faz meu salto alto subir na mesa do bar lotado; e levanta bem devagar a minha saia enquanto eu danço um lê, lê, lê pra você? 

Sim, Lucrécio, pode vir quente e armado que estou toda orvalhada pensando nos seus abraços.Vamos viver um romance, um namoro, um looping, um lance, um sei lá o quê; vamos temperar juntinhos, meu safadeco, essa moqueca de eu e você. 



2013

14.5.13

Perfeita proporção.




Eu não quero, não preciso e nunca mais vou ver

o seu des sorriso
o seu des apego
o seu des atino
o seu des afino
o seu des amor

Você também não quer, não precisa e nunca mais vai me ver?
Então estamos quites; nunca foi e já se acabou.




2013

2.5.13

Fui.



Decididamente decidi
não ir ao encontro do nosso desencontro
não me aproximar do que não pode ser tocado
não sorrir sem poder ser feliz
não olhar o que não pode ser retido
não fingir que o que desaconteceu podia ter sido
não calar o que com o silêncio já foi dito

Decidi  partir
Decidi por mim
Fui



2013

27.4.13

O beijo

The Kiss - Auguste Rodin
Tascou-lhe um bilhete de amor à queima roupa. Talvez precipitado, sem encontros marcados, sem avisos sinalizados. Na verdade, tratou-se de um combinado (quase) à sua revelia; um conluio entre as palavras e os sentimentos a favor de um certo desejo. 

O bilhete foi na carona de um livro emprestado. De fato, o assunto deveria ser restrito ao trabalho, mas desejos sempre têm pressa e quando acham um chofer são assim: escolhem sempre o caminho mais rápido. 

Nos dias que se seguiram, não houve nenhum tipo de resposta ou comentário do destinatário. Ele deveria ter desconfiado, mas sabemos que um ser enamorado não lê com clareza nem outdoor. 

Mas havia a festa do tal trabalho compartilhado; eles tinham data para se encontrar. Ele queria muito isso, mas a oportunidade que antes poderia ser uma celebração, agora ameaçava tornar-se um constrangimento. Aquele doce gosto de framboesa, de repente, amargou. 


Pensamentos desconcertantes fizeram a festa bem antes na cabeça dele: Será que ela o achou ridículo, inadequado, invasivo, canastrão, tarado? Será que tinha namorado? Que estava de casamento marcado? Vai saber. O que importava agora qualquer coisa dessas. Estava feito. O bilhete estava escrito, entregue e lido. O soldado raso já estava na frente da batalha, totalmente desarmado. 

No dia da festa, lá estava ela, mais bonita do que em qualquer outro dia, mas sem o menor sinal de conexão. Logo que se viram, tudo o que ele ganhou foi um genérico aceno orquestrado. Em outro momento, quando das mãos dela saíram uma das champagnes da comemoração, ela encheu todos os copos próximos, mas o dele permaneceu vazio bem ali ao seu lado. 

Ele bem que tentou dirigir-lhe uma frase ou duas, mas ela respondia pela metade, com olhos incompletos e um tom sempre desinteressado. Nada adiantava. Não havia mais ponte entre eles. O bilhete o havia sitiado. 

Antes do final da festa, ele resolveu ir embora. Foi interceptado. Ela o chamou, pronunciando o nome dele com certa hesitação, como se não tivesse certeza se sabia o seu nome correto. Maldade. Ele já estava satisfeito com pelo menos meia dúzia de não em três vias carimbado. 

Ele parou, virou-se para ela, puxou a gola do casaco para cima e enfiou as mãos nos bolsos, tentando proteger-se daquela noite subitamente fria. Ela então começou um cirúrgico discurso sobre como foi importante e útil o tal livro emprestado, como ele beneficiou imensamente o trabalho e... 

Ele não a ouvia mais. Vê-la a bordo daquele amontoado de frases eleitas por voto indireto, ditas em tom formal, quase impostado, deu-lhe a exata dimensão do estrago. Ele a olhava em silêncio e, de verdade, lamentava ter escrito o (agora maldito) bilhete que desarrumou as coisas e não foi para colocá-las em um lugar melhor. 

Sua atenção voltou, quando ela subiu um pouco a voz ao terminar o tratado ensaiado: “Foi mesmo muito atencioso da sua parte, me enviar o material. Mais uma vez, obrigada!” 

Ele respeitou o novo idioma, respondeu um econômico “de nada”, se encolheu um pouco mais e partiu. 

No caminho de volta para a sua vida de antes, ele tirou um pedaço de papel do bolso do casaco e o amassou com força, antes de arremessá-lo em direção a um lixo próximo. 

Ali jaz o seu último bilhete para ela endereçado. Não. Ele nunca pensou em entregar a ela um novo bilhete apaixonado. Ele o escreveu apenas para arrancar da boca aquele beijo calado.

2013

26.4.13

Fragmentos (2)


Sexta à noite. Na mão uma taça do meu vinho preferido. Na TV, qualquer coisa. Meu corpo e minha mente estão confortáveis no sofá. Celebro a minha paz. 

Um barulhinho conhecido sai do meu celular. Ele está vivo. O mundo deve estar também. E eu aqui, dissimuladamente morta. Delícia. 

Pego o celular. Tudo o que eu vejo registrado no visor é o nome do remetente da mensagem e um ponto. Isso mesmo. Apenas um ponto. Levo a sério. Nem de longe penso em responder. Não vou escrever esse enredo, mais uma vez, sozinha. Conheço o final. Se não tem coragem, meu caro, que seja esse então o ponto final. 

Volto à TV. Fico zapeando. Quero encontrar um filme inspirador, um romance dos bons, uma emoção de baixo custo. Adoraria rever pela milésima vez o filme ‘Orgulho e Preconceito’, baseado no livro de Jane Austen. 


O fato é que não sou capaz de me acostumar com a falta de sutilezas e de originalidade nos interesses. Estou com intolerância ao sexo sem endereço, à falta de educação, às emoções pulverizadas. Desde quando o amor virou matéria exclusiva dos filmes e livros? Não. Se existe alguém como eu por aqui, deve existir outro da mesma matéria-prima por aí. E afinal, é possível dezenas de autores de variados séculos, gêneros, gerações, culturas e idiomas conseguirem escrever sobre algo que não podemos viver? 

A semana passa... 

É sexta. Desmarquei o chopp com amigos. Tenho adorado a minha própria companhia. Escuto meu CD favorito. Na falta do filme, releio os diálogos instigantes de Mr. Darcy e Elizabeth. Brinco com o meu cachorro. O telefone toca. Um longínquo ex-grande amor continua a fingir que não destruiu a nossa soma de dois. Você vai mesmo comigo para Paris no próximo mês? Suspiro. Ele continua. Não precisamos ficar juntos. É um presente. Só quero ver a sua carinha quando conhecer a cidade que tanto ama. Você vai? Acho que sim. Você é a única pessoa do mundo que tem que ser convencida a ir a Paris. Fico monossilábica. Sei que não vou. Ele sabe também. Viro a página. 

A semana passa... 

Sexta pela manhã. Chego para a reunião do projeto da nova filial da empresa que trabalho. Entro na sala, levemente atrasada; quando vejo o arquiteto sinto na hora uma inegável conexão. Me desconcerto e começo um estranho exercício de enumerar as coisas que acho que me desagradam nele. A reunião prossegue. Nossos corpos, de longe, iniciam uma conversa paralela. Não acredito. Misturo-me ao grupo. Projetos, metas, determinações, tarefas. 

A semana passa... 

É sexta! Vagueio no Facebook. Taça de vinho na mão. Não quero comentar nada de ninguém. Hoje deve ser o dia internacional da bobagem. Resolvo passar uma mensagem inbox para meu melhor amigo. Quero contar a viagem inesperada que marquei. Digito o nome dele no campo de pesquisa. Aparece um homônimo. O conheço, mas desconheço o motivo do nome dele aparecer assim, do nada. Já fomos colegas de faculdade, namorados, amantes e, por fim, “ficantes” em generosos 25 anos de encontros, desencontros e reencontros. Mas hoje ele não pertence ao feed de notícias da minha vida. 

Na última vez, o moço me procurou com ares de finalmente! Cheguei a achar que podia ser um daqueles amores sem prazo de Jane. A partir daí, alternávamos encontros maravilhosos, regados a sexo intenso e conversas boas sobre a vida e livros, com ‘perdidos’ que desprezavam toda a alta tecnologia do mundo globalizado. Por dias nada de telefonemas, mensagens, emails ou sinais de fumaça. Ah é? Gelo! Ele se desesperava. Aí sim, ele usava tudo ao mesmo tempo agora na tentativa de fazer contato. Parecia até que tinha 6 braços, 3 bocas e algum coração. Eu resistia. Ele insistia. Eu cedia. O ciclo se repetia. 

No terceiro enredo repetido, tomei a iniciativa. Enviei uma mensagem perguntando se aquele “cachimbo era mesmo um cachimbo”. Ele reapareceu urgente. Atencioso. Preocupado. Charmoso. A mensagem de volta era longa e garantia que ligaria assim que acabasse a reunião que estava. Respondi um sincero não precisa. Ele enlouqueceu. Mandou dezenas de mensagens. Não respondi. Ele ligou. Disparei. O que você está me oferecendo não me interessa, minimamente, baby. O quê? É isso mesmo. Você achou que eu era uma “nega” que você conheceu na Lapa? Você não é companhia para o meu vinho. Ele gaguejou de raiva. Desliguei. 

A semana passa e outra também... 

É segunda-feira. Estou no supermercado, no setor de bebidas. Um flash do arquiteto invade a minha mente. Recordo que na reunião final do projeto tive a impressão de que, entre demonstrativos e desenhos, ele me observava em conta gotas. Em outro momento, quando ele se debruçou próximo a mim para pegar uma pasta, senti uma energia quase material nos unindo. Será? Elaboro uma nova lista de coisas que não gosto nele. A primeira já não me lembro. 

Já em casa, outro flash. Lembrei que quando ele tomou a palavra para explicar detalhes e apresentar a maquete, aproveitei o álibi para olhá-lo inteiro. Reparei no seu tom sério e objetivo; no bom humor e no sorriso amplo que exibia, quando se descontraía; no desenho do seu cabelo; no contorno dos seus braços; na dobra errada da calça social que usava; no contraste da sua camisa branca impecável com o sapato desamarrado, levemente sujo. Ele parece meio bossa nova e rock’n roll. Eu gosto. 

Estamos agora em um calendário sem datas marcadas. Penso na minha viagem na próxima semana. Não me mexo, apenas observo.

2013

25.4.13

O camarão está na página em branco.



Estou eu aqui sentada em um bar restaurante, em uma brecha de um ocupado dia, para comer alguma coisa e aproveitar a breve pausa para escrever uma crônica encomendada. Na minha cabeça passam mil assuntos, dezenas de possíveis personagens que cruzaram meu caminho nas últimas semanas, e que agora defendem seus motivos para saírem do anonimato e virarem estrelas do texto programado.

Enquanto ouço os argumentos de um por um na minha cabeça, peço uma indefectível empadinha de camarão. O pedido chega e eu, depois de um providencial suspiro para oxigenar a mente e o corpinho, dou uma quase ansiosa mordida na empadinha...Nhac! 

A empadinha amiga está quentinha, bem feita, bem temperada, mas acho que pedi uma empada de camarão; e esse crustáceo que tanto amo, com toda a certeza do mundo do meu estômago, não passou por essa empada, não disse alô, nem bom dia, muito menos até logo. 

Paro e penso rápido. Não, eu não preciso de um momento reclamão agora, não tenho tempo. Mas tenho vontade e, sem querer ser chata, armei um sorriso falsificado e disparei para o garçom que limpava a mesa ao lado: 

Quer mais uma???
- Amigo, será que você se enganou no meu pedidinho? - diminuí os termos tentando ser simpática – Eu pedi uma empada de camarão. 

- E é o que a senhora está comendo. Todas as empadas com essa bolinha de massa em cima são de camarão. Averiguei bem antes de servir. Nunca erro o pedido de uma empada, porque cada uma tem a sua pista. A de azeitona, por exemplo, vem com uma azeitona em cima. 

- Entendi perfeitamente. - Tratei logo de falar, antes que ele descrevesse as tais pistas de uma dezenas de sabores. 

Já desanimada. Calei os personagens que ainda insistiam em tentar me convencer a protagonizarem a tal crônica e dei mais uma dentada desconfiada. Nada. Nada de camarão. 

Meu ser que é adoravelmente tranquilo até ter motivos para ser bem malcriado, não conseguiu sossegar neste corpo que queria apenas descansar, escrever e comer camarão. Voltei à questão. 

- Garçom (que já estava deixando de ser amigo), por favor. – Ele se aproximou escabreado - Nesta empada não tem camarão, não tem nem um pedacinho de um; aliás, ela nunca foi nem visitada por alguém dessa categoria. 

- Mas a empada tinha a bolinha de massa em cima, eu vi, eu... – Interrompi o moço. 

- Querido, podia até ter 10 bolinhas, podia ter uma instalação de petit pois em cima desta empada, mas o fato é que pedi uma empada de camarão, e o que consegui foi uma empada com um creme temperado de gosto indefinido. 

- Mas a empada está ruim? O Maragão não faz empada ruim, vai ser a primeira vez que alguém reclama de uma empada feita por ele – disse o garçom que neste momento também não me amava. 

- A empada não está ruim, mas não é de camarão. Eu pedi e, supostamente, vou pagar por uma empada de camarão; e eu não estou comendo camarão nenhum!!!! 

- Então acho que a senhora não está com sorte, deve ser isso. Porque tenho certeza que o Maragão faz empada de camarão boa, mas a da senhora não veio com nenhum. Na hora dele rechear a sua empada, o camarão deve ter escorregado para a panela, sei lá. 

Respirei fundo, pensei no Dalai Lama, mas as palavras escaparam sozinhas. 

- Como assim? Então comer uma empada de camarão com camarão lá é sorte? Vocês não colocaram no cardápio “ Empada de Camarão”. Então não deveria ter pelo menos os restos mortais de um na minha empada? 

- A senhora está nervosa. Trabalhou muito hoje? Está estressada? Porque se disse que a empada não está ruim, não entendo por que não quer comer a sua empada. 

- Ok. Valeu. Esquece. – suspirei com a conformidade dos derrotados, antes de continuar - Eu só queria comer uma empada de camarão com camarão, mesmo que tivesse um mero traço de DNA do bicho para satisfazer a minha humilde vontade. Acho que uma empada de camarão deve ter camarão, mesmo que custe mais caro, só isso. 

- Mas aí ninguém vai querer pagar, minha senhora. Vai ficar tudo encalhado. O patrão teria até um piripaco. 

- Entendi – respondi um pouco mais derrotada e mordi o último pedaço da empada, que agora, além de não ter camarão, estava fria. 

- Mas quanto custaria uma empada COM camarão, só para eu saber? - as palavras insistiam em sair, independentes, na esperança de aplacar a minha vontade frustrada. 

- A senhora não viu no cardápio? A empada de camarão custa R$ 4,00. Quer mais uma?


2013

27.1.13

Alvo!



Nesse turbilhão de vozes, cores, luzes e apelos
É difícil você se achar, saber quem é e não se perder
Temos que buscar isso sem medo, pressa ou desistências.
No fim das contas esse é o único desafio verdadeiro que temos
Tudo o que está em volta são projeções, probabilidades e estatísticas

2013

4.1.13

Trilhos vazios...


"O que mexe comigo agora não é mais ele; é a lacuna."

2013